Li num e-mail que recebi, um texto que continha uma tese de doutorado ou mestrado, não sei bem, de um professor de psicologia numa grande universidade em São Paulo no qual ele falava da invisibilidade pública. No texto vem a notícia que, para defender a sua tese, o professor foi viver como gari na grande cidade. Varrendo ruas, passando as necessidades, sofrendo as injunções do próprio gari, como se fosse um deles realmente. Nos primeiros dias, os garis conseguiram um pouco de café e, como não havia xícara, um deles apanhou uma garrafa pet no lixo, cortou-a e fez dela um recipiente em que pudessem beber o café. E ofereceram, depois de alguns já terem bebido a iguaria, na mesma xícara, ao nosso professor/gari. E ele notou que todos pararam o que estavam fazendo para observar a sua reação, para ver se ele realmente tomaria café naquela xícara contaminada, contra seus padrões culturais. Para surpresa dos garis e para a sua definitiva aceitação no grupo o nosso herói bebeu o café com naturalidade.

Conta ainda, o professor/gari que tendo necessidade de algum dinheiro e como a Universidade estava próxima ele o foi buscar na sua mesa de trabalho dentro da Universidade. Estava fardado e, da forma como se encontrava foi buscar o dinheiro. Para sua surpresa, no caminho cruzou com alguns colegas de serviço (professores, claro) e nenhum deles o cumprimentou. Não por desdenharem o professor, mas, segundo ele, porque ele se tornara invisível dentro da farda de gari. O mesmo fenômeno ocorreu com alguns conhecidos que passaram por ele quando do exercício dos trabalhos de gari na rua e nunca nenhum deles falou com ele nem o cumprimentou.

Eu estou chegando ao escritório agora, para mais um dia de trabalho. No percurso, passei (moro numa cidade pequena em que – quase – todos se conhecem) por um grupo de garis e resolvi parar. Falei com todas, no momento só se encontravam mulheres que estavam sentadas em frente a uma casa num intervalo de serviço, conversando com o seu encarregado. Parei, conversei com elas e com o encarregado. Orientei sobre como uma delas deveria buscar a aposentadoria, enfim, vi as garis.

Na verdade, como todas as pessoas eu não tinha pensado nisso. Realmente passava e via apenas um monte de pessoas fardadas, com fardas de gari que não passavam disso. Pessoas que fazem o pesado trabalho de varrer as ruas de minha cidade. Um bocado de pessoas fardadas, sem nome, sem personalidade, sem existência física como pessoas humanas. Em quem a gente não repara, não pensa nelas como gente, não as considera e não valoriza o seu importante trabalho.

A gente somente vai descobrir como o trabalho do gari é importante se houver alguma greve, alguma falta da sua prestação de serviço DA INVISIBILIDADE PÚBLICA que chegue a nos incomodar

Eu aprendi uma lição importante. Veja só, descobri que gari é gente. E achei fantástica esta descoberta. É uma pessoa que tem sentimentos, dignidade, que merece o meu respeito e de todos nós que não somos garis. Que estas pessoas não são nem piores nem melhores do que nós outros. Mas que merecem, ao menos, que nós as cumprimentemos. Que paremos uma manhã qualquer, para, pelo menos, falar com elas. Conversar nem que seja para um breve cumprimento, como a gente faz com um amigo, com um colega de trabalho, com uma PESSOA.

É isto, gente, volto a dizer, eu descobri que gari é também uma pessoa.

Eu queria lhe pedir, a você que está lendo esta tosca mensagem, que ao sair de sua casa, principalmente aqui em minha cidade, para, um pouquinho antes de assumir o seu importante trabalho, faça uma mínima pausa na sua pressa de chegar ao seu destino e cumprimente esta pessoa, que é o gari que varre a sua rua.

De minha parte, muito obrigado.

Ubatã, 27 de janeiro de 2011.

Paulo Cabral Tavares