Por Paulo Cabral Tavares - Advogado

Por Paulo Cabral Tavares – Advogado

Eu tenho inveja daqueles camaradas que largam tudo e se mandam para fazer a viagem de Santiago de Compostela. Partem para um isolamento quase total, longe do conforto de seus lares, passando dias num país desconhecido, igualando-se a todos, sem privilégios, sem conforto, lavando a própria roupa, dormindo em albergues, enfim, vivendo um período de uma forma bastante humilde e consagrada unicamente à viagem mística. Correndo riscos, andando sempre a pé, sofrendo, mas vivendo um momento de religiosidade e de fé.

Tenho inveja porque apesar de ter tido muita vontade de fazer a viagem, nunca tive a coragem suficiente para quebrar a rotina e enfrentar a dura parada.

Todos que a fazem se redescobrem. Têm momentos de sublimação e elevação a Deus que eles próprios desconheciam. São relatos fascinantes de diversas pessoas, mesmo aquelas que não são devotos do santo e até mesmo não são católicos tradicionais. Mas que buscam um sentido na vida. Que querem descobrir novos horizontes, ou qualquer horizonte, pois muitas vezes a gente chega a um momento que perde o rumo. Ou não tem mais um rumo a seguir. Não tem metas e se resume a viver o dia a dia, apenas sobrevivendo. Caminhando pra frente por não ter outra opção. Sem grandes alegrias, mas apenas um surdo, leve e misterioso pesar que de vez em quando assola a alma.

Não é uma tristeza de matar ninguém, mas apenas um leve desconforto por não ter feito muitas coisas que queria fazer. Que um dia planejou fazer, mas que a vida foi adiando para mais tarde e termina no poço do esquecimento (no inconsciente?, Talvez.).  E fica uma leve amargura de sonho não realizado.

Quase sempre a gente não tem a vida que pretendia. Na maioria nós somos sobreviventes, nos adaptamos aos novos desafios e vamos em frente com a força da inércia. Sem chance de recomeçar. E às vezes mudamos tanto que nos tornamos irreconhecíveis aos olhos de dez, quinze, vinte anos atrás.

Aprendemos muito na caminhada. Quase sempre melhoramos muito. E aprendemos a sublimar, ou a mudar de objetivos, sempre inferiores aos que pretendíamos realizar. Mas resta o consolo de ver que realizamos muitas coisas boas também. Agradamos a muita gente, desagradamos a algumas, mas ninguém é perfeito e devemos ter a consciência da dualidade de sentimento das pessoas. Mesmo porque toda unanimidade é burra, como diria Nelson Rodrigues.

Sei que não farei mais uma viagem destas. Pensei até a ir a Aparecida em São Paulo. A pé. Pedindo asilo nas igrejas. Mas aí iriam dizer que eu tinha perdido o juízo de vez e não tive coragem de topar o desafio.

Agora que estou na prorrogação da vida, nesta dura partida que todos nós enfrentamos, não dá mais para fazer a viagem. Na verdade, todos nós estamos fazendo a nossa grande viagem no dia a dia. Para desaguar um dia na imensidão do desconhecido. Esperemos que quando chegar a nossa hora, possamos olhar para trás e ver que fizemos a nossa caminhada com dignidade. E que deixamos para trás algumas pessoas que nos querem bem e irão se lembrar com saudade de nós por algum tempo.